
"Só acontece com quem tá vivo!", disse Antonio, ao olhar os restos do carro que quase caiu sobre seu corpo. "Eu tô bem, mas foi por muito pouco", falou o Sr. Teixeira, mestre-de-obra, que também acabava de salvar sua vida se jogando nas tábuas amontoadas. O silêncio, a dor, e o estado de choque era o que víamos no Sr João, mais um sobrevivente do acidente ocorrido nesta sexta-feira tranqüila, em Camboriú.
Eram 15h quando o chefe chegou. O primeiro a encontrar foi seu irmão, Sr João, responsável pela organização e manutenção da empresa. Eu observava da minha sala a movimentação dele do lado de fora, e a maneira como balançava a cabeça e articulava as mãos. Ele estava nervoso. Sr João tentava argumentar, mas era em vão. Sr Raul, o chefe, começou a se afastar de João, e sua voz, ainda agitada, se aproximava do escritório, era perceptível sua irritação. Após, alguns minutos de exaltação repetindo a mim tudo que João fazia que o irritava, ele se lembrou que João havia esquecido de cadear uma caixa de luz. Fernando, filho de Raul, tentou defender o tio, mas também foi em vão. Ao se aproximar do escritório, João ouviu tudo de novo, até tentou argumentar, mas foi vencido pelo cansaço. Então se retirou. Foi pegar o seu carro para ir ao barranco fazer o que Raul havia mandado.
Logo, a sala voltou a se acalmar. A calma e a monotonia voltaram a reinar, como muito tempo não tinha. Um dia, incomum naquele escritório. Uma sensação de inutilidade no ar. Eu e Fernando dávamos risadas algumas horas antes, de tudo que não tínhamos que fazer, e como aquele dia era raro, chato, e estranho. Aquela sensação logo passou, quando duas pessoas subiram para conversar com Raul, em sua sala. A voz dos três homens ecoava. Mas, era reunião normal como todas. E aquele escritório voltava a ter a cara de sempre. Por pouco tempo.
Cerca de 10 minutos depois que os dois homens subiram, o Sr Teixeira apareceu na porta do escritório, e dessa vez não foi sorrindo e entrando pra tomar o meu cafézinho. Com os olhos arregalados, as mãos sobre o joelho esquerdo que sangrava, e muito ofegante, ele perguntou - Cadê o Raul??? O João caiu do barranco...!! Não consegui ouvir mais nada do que ele dizia. Nunca subi aquelas escadas com tanta velocidade, mas ainda não tínhamos noção do que havia acontecido.
Raul numa grande ansiedade tentava explicar a
atendente do
SAMU aonde estávamos, mas a comunicação estava complicada e a bateria de seu celular acabara.
Fiz a tentativa, mas a mulher continuava sem entender. Subi na moto e voltei as pressas pro escritório para ligar de um telefone fixo. A assistência chegou rápido. João, gemia de dores no corpo. Sua clávicula estava quebrada. Ora, seu carro havia
caído de cima de um barrando sobre colunas de ferro, que perfuraram o painel à frente do volante e o
capô da parte superior, caindo novamente na posição normal. Ele não largou as mãos do volante por vários minutos. O rosto suado, e olhar profundo de quem acabara de ver sua morte ficaram gravadas na minha mente. Assim como, os olhares perplexos de
Antonio e do Sr Teixeira, que após o Sr João ser levado ao hospital, ficaram lado a lado olhando em silêncio a cena daquele episódio. Imaginando o que poderia ter acontecido se as mãos de Deus não os tivesse empurrado para os lados.